Hoje é meu último dia desta viagem. Quer dizer, há amanhã, mas amanhã passarei o dia em viagem. Passarei a virada do ano em voo. Estranho, sim, mas ainda acho que vou gostar da ideia.
Uma pessoa querida disse que meu blog desabafômetro permitiu que refletisse sobre momentos pessoais de perda. Fiquei feliz. Não tenho grandes pretensões com este blog que nem sequer um perfil claro apresenta. E, contudo, tudo espero dele, pois entrelaça dois temas muito especiais para mim: sementes e Deus.
Semear é um ato de esperança. Só consigo sentir-me semeando em momento nos quais vislumbro futuro. Semear é um ato plural de infinita paciência e exige que eu cultive a despretensão. Isso não é fácil para mim. Mas tenho aprendido que o exercício, em si mesmo, é recompensador. E, por vezes, a descoberta epifânica que semeamos sem nos darmos conta que o fazíamos... Então os braços carregam jubilosos os feixes.
Claro, falo de espalhar boa semente. Daquela que produz fruto excelente que nos faz crescer no amor.
Lamentavelmente, também se plantam ervas daninhas. Também se espalham sementes de dor que trazem amargura. Destas também tenho minha cota de semear e talvez sejam tais sementes que eu mais tenha espalhado. Isso me entristece, mas - de algum modo - me convida à continua conversão. À possibilidade de construir novas estradas, de conhecer outros terrenos onde fazer nova semeadura.
Minha amiga diz que minhas palavras neste blog, de algum modo foram sementes em seu coração.
Deus é para mim muito, inclusive, um tema que aprecio. Deus é caminho de esperança. Uma presença constante, mesmo quando não estou completamente seguro se tê-lO ao meu lado. Queria muito saber falar de Deus de um modo que fosse semente de acolhida e de ternura.
Tenho falado de meu pai. Falar da dor de perder inesperadamente meu pai ajuda-me a pensar em Deus. Nos primeiros dias não podia aproximar as duas esferas: como conciliar um Deus amoroso que podia ter dado vida ao meu querido pai e não o fez? Agora pensa que talvez o consiga.
Não que tenha encontrado A resposta. Na verdade, das diferentes respostas que encontro, nem todas se excluindo, prefiro cultivar a atitude de abandono. Planto em mim mesmo a semente do abandono em Deus. Descanso n'Ele minha alma, meu cansaço, minha dor. Não silencio a minha dor, ao contrário, grito-a por diferentes vozes, uma delas sendo este blog.
Contudo sei que abandonando-me em Deus poderei recuperar-me e não desisitir de semear e de viver na plenitude que nos é possível.
Um ano termina. Não há mágicas, o novo ano trará com ele as suas dores e alegrias e eu continuarei sendo o mesmo. Tenho um caminho começado, novos caminhos a percorrer. Tenho
esperanças para o novo ano sim. Não me limito em promessas e expectativas impossíveis, mas quero que este novo ano que se inicia seja um momento - mais um - para renascer. Quantas vezes renascerei?
Lembro de Mercedes Sosa cantando "Como la cigarra":
"Tantas veces me mataron
Tantas veces me morí,
Sin embargo estoy aquí,
Resucitando."
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