sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

FIM DE ANO, FIM DE VIAGEM

Hoje é meu último dia desta viagem. Quer dizer, há amanhã, mas amanhã passarei o dia em viagem. Passarei a virada do ano em voo. Estranho, sim, mas ainda acho que vou gostar da ideia.
Uma pessoa querida disse que meu blog desabafômetro permitiu que refletisse sobre momentos pessoais de perda. Fiquei feliz. Não tenho grandes pretensões com este blog que nem sequer um perfil claro apresenta. E, contudo, tudo espero dele, pois entrelaça dois temas muito especiais para mim: sementes e Deus.
Semear é um ato de esperança. Só consigo sentir-me semeando em momento nos quais vislumbro futuro. Semear é um ato plural de infinita paciência e exige que eu cultive a despretensão. Isso não é fácil para mim. Mas tenho aprendido que o exercício, em si mesmo, é recompensador. E, por vezes, a descoberta epifânica que semeamos sem nos darmos conta que o fazíamos... Então os braços carregam jubilosos os feixes.
Claro, falo de espalhar boa semente. Daquela que produz fruto excelente que nos faz crescer no amor.
Lamentavelmente, também se plantam ervas daninhas. Também se espalham sementes de dor que trazem amargura. Destas também tenho minha cota de semear e talvez sejam tais sementes que eu mais tenha espalhado. Isso me entristece, mas - de algum modo - me convida à continua conversão. À possibilidade de construir novas estradas, de conhecer outros terrenos onde fazer nova semeadura.
Minha amiga diz que minhas palavras neste blog, de algum modo foram sementes em seu coração.
Deus é para mim muito, inclusive, um tema que aprecio. Deus é caminho de esperança. Uma presença constante, mesmo quando não estou completamente seguro se tê-lO ao meu lado. Queria muito saber falar de Deus de um modo que fosse semente de acolhida e de ternura.
Tenho falado de meu pai. Falar da dor de perder inesperadamente meu pai ajuda-me a pensar em Deus. Nos primeiros dias não podia aproximar as duas esferas: como conciliar um Deus amoroso que podia ter dado vida ao meu querido pai e não o fez? Agora pensa que talvez o consiga.
Não que tenha encontrado A resposta. Na verdade, das diferentes respostas que encontro, nem todas se excluindo, prefiro cultivar a atitude de abandono. Planto em mim mesmo a semente do abandono em Deus. Descanso n'Ele minha alma, meu cansaço, minha dor. Não silencio a minha dor, ao contrário, grito-a por diferentes vozes, uma delas sendo este blog.
Contudo sei que abandonando-me em Deus poderei recuperar-me e não desisitir de semear e de viver na plenitude que nos é possível.
Um ano termina. Não há mágicas, o novo ano trará com ele as suas dores e alegrias e eu continuarei sendo o mesmo. Tenho um caminho começado, novos caminhos a percorrer. Tenho
esperanças para o novo ano sim. Não me limito em promessas e expectativas impossíveis, mas quero que este novo ano que se inicia seja um momento - mais um - para renascer. Quantas vezes renascerei?
Lembro de Mercedes Sosa cantando "Como la cigarra":
"Tantas veces me mataron
Tantas veces me morí,
Sin embargo estoy aquí,
Resucitando."

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

APRENDIZAGENS (5): Renasceres

Escrevo de Lisboa. Viajei ontem. O tempo do voo pode ser também um tempo para pensar. Além disso, terminei O ano da leitura mágica. Mesmo uma biografia, pode ser mais fácil que a realidade. Depois de superada a montanha ela parecerá menor? Talvez... De qualquer maneira, não há como discordar: a generosidade nos salva. Pela generosidade, pela ternura, pela bondade resgatamos o que há de mais autêntico em nós. Esse caminho nos liberta. Ele liberta o meu caminhar.
Não superei a minha dor. Claro, viajar a atenua. Preencher o tempo de um modo diferente pode ser fugir do futuro. Pode ser. Mas também pode ser um momento de pausa, de repensar e repensar-se. O mesmo para passar um ano lendo um livro por dia ou passar vinte dias na Europa. São ambas duas maneiras de sair de si mesmo. Seja para fugir de si mesmo, seja para olhar melhor. Não deixa de ser interessante que o mesmo movimento possa nos levar a direções tão opostas.
A generosidade, a bondade e a ternura me salvam. Acredito nisso. São chão que alicerçam meu caminhar. Dão sentido da vida. Superar a dor é, de certo modo, apenas isso: dar sentido à vida. Apenas isso? Sim, a fórmula simples esconde uma montanha em si mesma. Isso é o que a autora de O ano da leitura mágica descobriu. Isso é que, eu, dia a dia, procuro descobrir. Redescobrir. Pratico então a generosidade não tanto pela reação do outro, mas por conta de que eu desejo ser. Ser generoso dá-me uma identidade, faz-me ser um "eu".
É um desafio enorme em si mesmo, eu sei. Ainda mais: eu vivo. Por isso, a distância espacial, como um sair de mim mesmo para olhar-me melhor ajuda.
Eu não precisava ter vindo a Lisboa para isso. Poderia ter lido um livro por dia, durante um ano, ou começado a caminhar ou refugiado-me na pintura ou... Mas preciso criar, constantemente, rupturas para que esse movimento de distanciamento seja constante. Desse modo posso ver-me melhor e posso observar o meu progresso caminhando. Não poderei vir a Lisboa todos os meses (embora não falte a vontade), mas posso caminhar quase todos os dias, posso retomar a academia (malhar também permite-me esse tempo em que estou só não o estando). E, principalamente, posso valorizar a bondade, a ternura e a generosidade diante do outro. Com o outro.
Praticar a bondade, a generosidade e a ternura com meus amigos. Queridos amigos que têm sido generosos, bondosos e ternos comigo. Queni, João, Teresa, Priscilla, Eduardo, Vanise... Deixo mais alguns nomes por citar. Meu Deus, eu tenho tantos amigos!
Com minha mãe. Com meu irmão. Com meus tios, minha sobrinha, minha cunhada...
E, desafio maior, com o desconhecido ou, desafio maior ainda, com aquele com que, de antemão, já sei que não irá valorizar meu gesto generoso.
Desafio que exigirá constância e que me significará voltar a ser eu mesmo sendo um outro. Sim, ninguém passa por tais experiências para voltar a ser o mesmo. Isso eu já veriifico. Mas quem eu sou, ou melhor, quem eu vier a ser, isso dependerá, em grande parte, de mim. Nisso investirei: em semear esperanças.
Praticar isso me resgatará. Lentamente.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

SOBRE A SAUDADE

A saudade é uma espiral em linha reta interseccionada por muitas espirais e retas.
A saudade é azul, mas pode tingir-se de cores ocres a qualquer momento.
A saudade é instável, mas deseja um lugar permanente.
A saudade precisa ser repetida para não ser tão lembrada.

A pressa como a saudade, passa e
volta.

Linha incolor tecida de muitos silêncios e espaços escondidos em passados imaginados.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

APRENDIZAGENS... (4): O medo

Após a morte do meu pai experimentei ou reexperimentei um medo mórbido que embora não constante, me assaltava, sim, como um ladrão, nos momentos menos pensados.
Não falo daquele medo razoável que todos temos, mais em certas ocasiões do que em outras e que, de algum modo, regula os comportamentos, impedindo-nos de cometer algumas 'maluquices' que, mais tarde, descobrimos infundadas. Por tal medo, nunca pulei de paraquedas ou fiz algumas outras coisas que, depois, revendo, percebi que apoiava-me no medo para ser eu mesmo. Eu sou eu e meu medo.
Tampouco falo do medo que temos de enfrentar em algum momento para sermos nós mesmos. O medo de sair da casa dos pais, o medo de escolher uma profissão, o medo de mudar de cidade. Medo que enfrentamos para descobrir ser que somos melhores sem ele. Eu sou eu menos o meu medo.
Em um fado, pelo qual nunca nutri grande simpatia, Amália Rodrigues canta: "O medo mora comigo,/ Mas só o medo, mas só o medo.// E cedo porque me embala / Num vai-vem de solidão, / É com silêncio que fala, / Com voz de móvel que estala / E nos perturba a razão". Eu não queria o medo morando comigo. De fato, onde está o medo, tal medo, está só o medo.Um medo que silencia, que nos esfria o corpo, que nos perturba a razão e, conscientemente, sentimo-nos outros, sem o desejar.
Tinha medo de morrer de repente, como ele havia falecido. Tinha medo de vir a descobrir que tinha alguma doença grave que, de uma hora para outra, transformasse totalmente (de novo?) a minha vida. Tinha medo de não disfarçar devidamente o meu medo. Tinha medo, particularmente, por minha mãe. Pela saúde dela: e se ela, também, assim, tão de repente, de modo tão inesperado, viesse a falecer? Tinha medo pelo meu irmão, de que ele não aguentasse tamanho tranco. Medo. Será?
Descobri, quando nada queria saber, que o medo é uma pergunta para a qual sabemos não encontrar - nem desejar - uma resposta. O medo engessa, deixando-nos imóveis. Não tão imóveis que, contudo, não nos possamos mover: mas o movimento é um caminhar para trás, para o contra, para o outro lado. Um movimento que me fazia desejar a imobilidade.
"Enfrentar o medo" é uma expressão tão vazia. O que eu queria era respostas, não há o que enfrentar no silêncio a que a pergunta nos arremete. O olhar se volta para todos os lados e de todos os lados nada é suficiente para acalmar. Lembro que tinha vontade de sair caminhando, caminhando muito, andando sem rumo até a exaustão. O cansaço haveria de acalmar as perguntas: ele, de algum modo, forneceria as respostas. Mas o medo suga as energias. As pernas enfraquecem, a mente fica confusa e não sabe aonde ir. O olhar se turva e pouco enxerga.
A fragilidade de sentir medo é também a consciência de nossa fragilidade. Ser frágil não me assustava antes. Agora me assusta. Descobri-me frágil como nunca antes o havia percebido. Uma fragilidade que não depende de nada que eu possa fazer: eu ou os outros.
Em algum momento ouvi a 'oração da serenidade'. Acho que foi em algum programa de televisão ou algo assim. Nada muito espirtuoso ou espiritual, mas, apesar de, o cansaço acordou com a força das palavras:
"Concede-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir uma das outras".
Passei a (tentar) cultivar essa atitude.
Uma querida amiga comentou sobre a importância de manter a mente ocupada. Falou de uma senhora a quem ela apoiara numa situação de luto e que ocupara a mente começando um intrincado ponto de tricô. Pronto descobri a veracidade desse conselho: não deixar a mente entregue ao medo. Era um esforço tal movimento, mas era um esforço válido, por mais gigantesco que parecesse ser. Claro, o tempo... um dia após outro. E o apoio de amigos. E o sol brilhando ocasionalmente no céu. E a redescoberta de alguns prazeres, como um doce com um café com leite no fim da tarde. E o tempo. E a atitude de não desistir. Mais que isso, a atitude de entrega. Entregar-me para um Deus que é capaz de dar-me 'serenidade'. E, nesse contexto, tomo serenidade por paz. Paz.
Há muito tempo li uma frase atribuída ao educador Freinet: "São válidos todos os caminhos que levam para o alto". A frase surgiu de passagem e caiu tão fundo em mim que criou raízes e de vez em quando surge, como um pequeno mantra, ao qual me agarro. Pedir serenidade a Deus era um caminho para o alto. Era válido.
Não sei o quanto avancei em meus medos, mas sei que avancei. Não tenho resposta para as perguntas que me engessavam, mas tenho esperanças. Tenho desejos. Tenho alguma dose de serenidade, suficiente para esperar vencer o medo. Já não me permito - e gosto de pensar que já não o permite Deus - que o medo me engesse, imobilize... Alimento-me dessa esperança e permito-me sorrir. Sim, o medo ainda mora comigo, mas já não é só o medo, já não há essa desolação: mais um avanço, mais um motivo para sorrir, para agradecer a Deus.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

APRENDIZAGENS... (3): Um mar de memórias

A memória é o presente do passado. Não apenas a lembrança de um acontecimento, mas a lembrança selecionada desse acontecimento. Mas ainda, a lembrança de pequenos acontecimentos desse acontecimento. E não de todos. A memória se constitui de pedaços de um fato passado que se unem entre si plantando mais uma sensação que um quadro mental. Esses pedaços nem sequer são sempre coerentes entre si: misturam aromas, sentimentos, quadros mentais, informações que surgiram de outros momentos diferentes daquele que se está recordando. A memória é uma armadilha. A memória nos salva.
A memória faz que eu seja que eu sou hoje e e permite que eu me projete para o futuro. Ela me diz que como eu fui capaz de construir memórias felizes no passado, outras memórias felizes virão. A memória me lembra que eu fui feliz e que eu poderei ser feliz outras vezes e dos modos mais inusitados. A felicidade é uma dádiva de Deus. A memória também me traz pessoas e lugares distantes e me ensina que até a dor, por mais profunda, passa.
Hoje guardo de minha infância mais nítidos os dias de sol. O sol brilha de modo muito especial na Galicia, onde chove tanto. Aqui no Brasil o sol é quase algo corriqueiro. O céu azul parece algo comum, perdemos a sensação de dádiva. Mas havia domingos inundados de sol na casa de meus avós, na então pequena aldeia do Milladoiro, perto de Santiago de Compostela, na Galicia. Esta lembrança vem acompanhada de rosca de reis e então eu sei que não é verão. Rosca de reis era algo que apenas se comia nesta época do ano: a época do Natal, particularmente, no dia dos Reis Magos, 06 de janeiro. Nesse dia, em que se celebra a visita dos reis magos ao Menino Jesus, tradicionalmente, as crianças espanholas recebem seus presentes de Natal. Os meus, contudo, eu costumava a recebê-los antes, evocando a ideia de que no Brasil, a data 'certa' é o dia 25 de dezembro.
Diante da casa de meus avós havia um grande patio, onde ficava o galinheiro e um horreo, uma espécie de depósito da colheita do ano. Naquele espaço mágico e amplo eu me sentia no ponto zero: como se todas as direções do mundo partissem dali, como se dali se medisse todo o longe e todo o perto.
Meu pai nos levava para a casa dos meus avós no domingo pela manhã. Íamos em um carro azul. Minha mãe queixando-se das curvas da estrada. Parávamos (ou paramos nesta lembrança específica) em algum lugar para comprar uma rosca de reis e seguimos viagem. Queria lembrar mais do que meu pai poderia ter dito, mas lembro de meu pai agindo mais do que dele falando. Esse homem tão amado de silêncios tantas vezes intransponíveis. Talvez para ele mesmo. Sei, contudo, que ele era feliz. Sei? Assim o tenho em minhas memórias. Espero estar certo.
A maior dificuldade dos silêncios é a necessidade das pontes. A dificuldade maior é, portanto, o muro branco e contínuo que o silêncio forma. Mas, havendo sol sempre poderemos procurar uma porta. Os dias de chuva, que também têm graça especial, dificultam, contudo, as caminhadas. Deixar as portas abertas facilita dar sentido ao muro. A porta aberta é também uma ponte para o outro lado e sempre precisamos do outro lado para continuarmos nossas muitas caminhadas.
Éramos, usualmente, muitos netos reunidos nessas festividades. Eu era um dos netos do meio e sendo filho mais velho resultava-me incômodo partilhar uma posição diferente daquela com a qual convivia na maior parte do tempo. De um modo geral, contudo, a memória que trago comigo é de alegria. Era festivo estar com os primos, particularmente, os mais velhos. Era um aprendizado deixar de ser o menino da cidade, filho mais velho e passar a ser mais um no campo. Um aprendizado que, hoje, me traz uma saudade fina como uma brisa. Lembro de ir perto do monte, aonde havia um tanque para lavar roupas, algo meio comunitário e que parecia uma grande piscina. Lembro-me de uma fonte que havia perto da casa dos meus avós.
Queria lembrar-me de estar de mãos dadas com meu pai, mas não consigo. Forço a mente e tenho uma série de lembranças solitárias. Mais tarde notei que, de algum modo, a solidão é também constitutiva de quem eu sou. Notei que preciso constantemente aprender a dar as mãos a Deus e que esse aprendizado é, em si mesmo, uma caminhada.
Particularmente especial era o momento em que íamos, os homens da casa, à taverna, antes do almoço. Tomava uma coca-cola. Meu pai por perto ensinando-me a ser adulto. Uma bênção, com regrigerante e amendoins ou batatas fritas.
Lembro de uma surpresa que meus primos me armaram uma das vezes que chegamos à casa dos meus avós. O sobrado tinha uma espécie de pátio superior que, hoje, parece-me que servia unicamente para que debaixo dele se pudesse guardar o carro. Chegamos nós e pusemos o carro por ali e ao sair todos os meus primos me olham lá de cima e acenam e eu me senti feliz por ter primos e fazer parte.
Fazer parte é uma porta que abre muros, constrói pontes, rompe silêncios.
Mas nessa época da infância pai e mãe parecem lugares eternos e imovíveis que nunca vão nos deixar. E, muitas vezes, o simples fato de que estejam ali perto já comunica tudo o que precisamos.
Hoje lembro desses fatos enquanto me obrigam a pensar na documentação da casa que ficou para mim de herança. Sei bem que até nisso sou agraciado, pois há tantos pais que, ao falecer, deixam uma situação financeira instável para os outros. Não foi o caso do meu pai.
Mas, o que são as memórias dos dias de sol com primos e rosca de reis nos domingos na casa dos meus avós perto de uma casa de herança? Mas, ainda há o sol brilhando lá fora me lembrando desse passado bom, ou pelo menos, bom hoje, nas memórias que dele trago. E ainda há o sol lá fora pronto para construir outras memórias boas e felizes para o futuro mais além.
Peço a Deus que me ensine a guardar as memórias construídas e a caminhar na construção de novas lembranças.

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

ELOHAI N'TZOR

Elohai, n'tzor l'shoni meira us'fatai midabeir mirma,
V'limkal'lai nafshi tidom v'nafshi ke-afar lakol tih'yeh.
Elohai, Elohai (3 x)
P'tach, p'tach libi. (2 x)
P'tach libi b'toratecha.
Yih'yu l'ratzon imrei fi v'hegyon libi l'fanecha,
Adonai, Adonai, Adonai,
Tzuri, Adonai, Tzuri v'Go-ali.



Ó, meu Deus, livra a minha língua do mal e os meus lábios do engano
Ajude-me a ficar em silêncio diante do escárnio e humilde perante todos
Meu Deus, meu Deus
Abra o meu coração
Abra o meu coração para as tuas leis.
Que as palavras da minha boca e as meditações do meu coração te sejam aceitáveis.
Meu Senhor, meu Senhor, minha Rocha
Meu Senhor, minha Rocha e meu Redentor

APRENDIZAGENS... (2): Sobre perdão e outros demônios

Pode o perdão demonizar? Tenho pensado muito nisso. Perdoar os outros é algo difícil. A luta entre o que esquecer e o quanto esquecer e o como esquecer o que foi feito. Perdoar é doar. Não quero, até porque não o saberia fazer, alongar-me sobre o sentido do termo. Sei que perdoar é bom, mas isso é difícil. Para mim, particularmente. Entre o ato racional do perdão e os mares e tempestades interiores há céus de distância. E o ato racional do perdão já é uma conquista. O maior problema do perdão é o momento seguinte, em que ele se prova como realidade ou se manifesta como apenas uma pequena intenção, um quase-fracasso em acontecer-se.
De todos os perdões, aquele que me parece mais difícil é o que se faz de modo reflexivo: o perdoar-se. Perdoar-me é talvez o meu maior desafio. Mesmo que racionalmente já o tenha feito milhares de vezes, como convencer o meu coração, meu lado mais irracional, menos ponderado, que isso, de fato, ocorreu? E, de repente, embarga-me a ideia de que tudo poderia ser de outro modo se eu, se tão somente eu, apenas se eu... e mil malabarismos mentais se desenham, mil possibilidades que permitiriam que hoje tudo estivesse bem. Então sei que não consegui um perdão, sequer pequeno, para mim.
Minha relação com meu pai nunca foi das mais fáceis. Meu pai era homem de muitos silêncios e por vários motivos: o sétimo filho entre oito, de um casal da zona rural da Galícia, de uma Espanha que saia de uma guerra cívil, vitimada por um franquismo que perduraria por longos anos. Com uma educação formal que parou em algum momento, ao que parece, no terceiro ano do fundamental. Alguma fome na infância, alguma desatenção... as histórias do passado nunca foram completamente claras. De minha avó guardo algumas imagens e o mérito de que nenhum de seus oito filhos se perdeu. Meu pai, um filho que, com apenas dezoito anos, deixa a casa paterna e vem para o Brasil, viver em outra língua tão parecida à sua e, ao mesmo tempo, tão outra. Experiências de vida que vão calando a voz, deixando-a espessa e quase desnecessária. Silêncio que era um tormento, porém, para uma criança, um adolescente, eu.
Por vezes penso se o silêncio do meu pai teria ajudado a que eu me aproximasse de Deus. Aproximar-me de outro Pai, que me ouvisse melhor, que pudesse me entender melhor, a quem fosse mais fácil me aproximar. Lembro que em alguns momentos havia uma quase disputa entre pais dentro de mim, como o difícil aprendizado de ter que escolher a um deles para ser meu Pai. Hoje tudo parece tão enevoado que falar dessas imagens é quase falar em algo sem contorno.
Claro que houve muitos momentos felizes e, nos últimos tempos, meu pai e eu disfrutávamos de uma tranquila paz.
Lembro-me da minha infância na Espanha, nos domingos de sol que saíamos pela manhã para passear no Centro d'A Corunha, onde vivíamos, e eu tomava sorvete de chocolate e nata. Era uma felicidade tão grande e sutil que até hoje me sinto alegre só de pensar. Já pouco mais tenho do que flashes desses instantes em mim, apenas ainda guardo forte a sensação boa que eram aqueles momentos. Depois íamos almoçar fora, em um pequeno restaurante e eu pedia merluza com fritas. E tudo parecie tão perfeito como uma ou outra papoula que a primaveira permitia ver nos lugares mais inusitados. Era domingo e o tempo parecia infinito.
Se, agora, fechar os olhos, ainda me comovo com papoulas vermelhas e frágeis como os sentimentos mais profundos.
Mas tanto do que meu pai falava tinha razão de ser: tantas de nossas discussões não teriam, hoje, qualquer sentido. Tantas palavras foram ditas inutilmente que tornam o silêncio uma lição de sabedoria. E, ainda assim, não sei, não saberia, retrocedendo no fio do tempo, como fazer de outro modo ou o que fazer. Não sei. Não sei.
Também por isso escrevo, para plantar frágeis papoulas nos espaços resconsos de quem sou e para conseguir perdoar-me. O perdão seria como o sol que mergulha fundo em mim e desperta as papoulas e as faz germinar, frágeis e serenas, repletas de beleza em sua simplicidade. Não quero esquecer o passado, não gostaria de esquecer nada de meu passado. O meu passado é a parte essencial para compreender quem eu sou no meu presente. Quem sou hoje. E eu gosto de quem sou hoje.
Neste momento em que desejo cultivar perdão, consigo relembrar do céu azul e de frágeis papoulas vermelhas dançando a qualquer brisa.
Não é o perdão, mas é um começo. E isso peço a Deus: que me ensine a plantar as papoulas nos lugares resconsos de mim mesmo. E o que o sol possa chegar até elas e elas possam germinar...

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

APRENDIZAGENS... (1): Em busca da Ilha Desconhecida

Hoje descobri, de repente, agraciado, como se fosse uma bênção ou um pingo de chuva, o motivo maior que me levou a começar este blog. Eu preciso aprender a viver. O aprendizado que mais desejo é o do perdão. Eu preciso aprender a perdoar. Eu preciso aprender a me perdoar.
No dia 10 de julho de 2011 meu pai faleceu. A dor traduzida por um momento que começou estava eu começando a digitar no computador, tal como o estou agora, é difícil de traduzir. É única. A dor que toda morte causa nos que estão vivos é única. Isso é algo insólito e inesperado: que você sinta uma dor única sobre um acontecimento que parece tão banal. A banalidade é que causa a surpresa?
A dor parece que nos engole e tritura, de modo antitético: ao mesmo tempo algo tão veloz e forte que tira o chão e o ar e, contudo, de forma tão fina e persistente que até parece doce e agradável. Ainda há pouco sentia falta de ar antes de dormir e a sensação de que talvez, também eu, morreria de ataque cardíaco logo logo. Ir deitar-se e sentir o corpo estranho, com a mente pensando em que talvez também eu morra de repente, esta noite mesmo, é triste, mas de algum modo traz a alegria, no dia seguinte, ao se constatar que estamos vivos.
Ainda me sinto culpado. Não sei do quê, mas sinto-me culpado. Carrego a culpa constantemente como quem carrega uma verruga: com o desejo de livrar-se dela e com o receio de que ela faça definitivamente parte de quem sou. Sou culpado. Mas, não sei bem como faria de outro modo. Fico, por vezes, pensando nisso, muito e muito, pensando em como seria o outro modo que me faria ser feliz e ter meu pai (ainda) vivo. Ter é uma estranha e triste forma de amar, diz Saramago, n'O conto da Ilha Desconhecida. Precisaria reler esse livro e talvez pedir ao nome que conseguiu um barco um lugar para, junto a ele e à mulher da limpeza, também eu lançar-me ao mar. Em busca da Ilha Desconhecida que espero que exista porque ninguém provou a sua inexistência.
Queria ter forças para, como essa personagem, prostrar-me à porta do rei e insistir 'Dá-me um barco', mas basta-me para já que eu tivesse um lugar nessa barco alheio. Talvez tudo o que eu tenha de mais meu seja o alheio. Talvez então nunca devesse usar o verbo ter com pessoas. Jamais tive meu pai ao meu lado, apenas disfrutei a sua companhia. O que hoje tenho é a memória, boa e gentil, de sua companhia.
Moro em São Paulo e meus pais moravam em Joinville. Nesta época do ano, vir a Joinville visitá-los era uma festa. Eu viajava no fim do mês sempre buscando passar a virada do ano em algum outro lugar. Mas até o fim do mês esperava-me o Natal e a companhia dos meus pais.
Somente hoje, ao chegar ao aeroporto de Joinville e não ver ali meu pai é que me dei completamente conta de como eu gostava de chegar a Joinville. Dai compreendi melhor porque tenho relutado em voltar para aqui, aonde agora me encontro. Sair da sala de chegadas e não encontrar ninguém provocou-me uma sensação de vazio que me fez desejar chorar. Sentei-me num banco e esperei. A lágrima ensaiava brotar. Diante de mim a porta que dava para a rua, que eu atravessaria em breve, para pegar um táxi para vir a casa. Minha mãe esperava-me em casa, minha mãe a quem eu pedia que não me fosse buscar. A força para levantar-me e atravessar a porta que se abria à minha frente, diante de mim, é que me faltou. Eu queria chorar, mas, de algum modo tão meu, apenas umedeci os olhos: faltavam-me lágrimas. Meu coração, no entanto, chorava.
Mudei o roteiro este ano. Apenas passo uma semana aqui, em dezembro. As festividades de final de ano minha mãe as passará com meus tios que virão visitá-la. Eu estarei viajando: Portugal, onde um dia já me plantei e a Itália, onde gosto de plantar-me, ocasionalmente. Depois retorno no começo de janeiro para o Brasil. Devo voltar a ver minha mãe. Viajei muito este ano: estive duas vezes em Paris, uma em Roma e uma em Buenos Aires. Viajei para fugir de mim e para aprender a mudar.
Mudar parece ter-se tornado palavra de ordem nos últimos tempos: mudei muito. Deixei de ver programas de televisão em que aparece a morte como tema. Deixei de ver até programas que falem de problemas de saúde. Nesse interim, morreu um amigo meu e eu não consegui ir ao velório. Mudei para continuar vivendo. Para superar o medo de cair na vontade de não viver.
Tudo isso passou por mim enquanto o táxi me trazia para a casa de minha mãe. A casa dos meus pais. A língua portuguesa, com seu machismo escondido, parece-me, até ela, querer pregar-me uma peça. Olhava o céu cinzendo e passeava por esses pensamentos em ensaio de oração. Estou lendo O ano da leitura mágica de Nina Sankovitch. O céu cinzento, minha dor, minha oração, os pensamentos dançantes, todos se fundiram em uma pequena, insignificante e límpida epifania que me deu (a) luz.
Em O ano da leitura mágica, Nina nos conta como procurou superar a dor da morte de sua irmã, vitimada por um câncer. Mesmo depois de três anos, a dor era um constante incômodo. Ela, então, resolve ler um livro por dia e, ainda, publicar uma resenha em seu site (ou seria blog?) sobre o livro lido.
Eu não vou ler um livro por dia. Não tenho a velocidade de leitura necessária. Não tenho essa disposição. Mas, o caminho para superar este incômodo e aprender a conviver com ele será a escrita. Desde que comecei este blog este era o seu objetivo escondido.
Apenas não me havia dado conta. Talvez achasse que conseguiria falar de mim e da dor e da minha relação com Deus em disfarçada abstração. Já não consigo, preciso assumir-me em palavras. Tenho notado que preciso parar de querer mudar, de querer fugir. Preciso assumir o eu no discurso. No eu o leitor me encontrará indefeso, mas talvez também possa se ver. Se, de algum modo, o leitor se vir nestas palavras, elas terão ganho um motivo maior ainda de existirem.
Ontem me apanhei dizendo a um amigo que as principais mudanças acontecem sem que desejemos que ocorram. De repente, nos damos conta, quase que por acaso, que mudamos. Que hoje já não faríamos daquele jeito ou que já não pensamos daquela maneira. Essas mudanças ocorrerão sempre. A morte de meu pai apenas dão lhe novos matizes. Mas tento mudar apenas por mudar, mudar para fugir. Não me agrido, ainda há programas da televisão a que não consigo assistir: Dexter, CSI... Ainda há conversas que me causam incômodo. Talvez isso faça definitiva forma de quem agora sou. Mas me dei conta de que, sem querer, assisti estes dias a um série policial, com assinato e resolução. Se tivesse parado para pensar não a teria assistido, mas sem me dar conta, me diverti com ela.
É a Ilha Desconhecida que desejo, essa ilha dentro de mim que me faz ser eu mesmo. Nessa Ilha habita o Sagrado e nela comungo com Deus. Ela se mancha pela dor quando, na verdade, deveria ficar mais em evidência. Sou tão frágil. E no táxi eu percebi que a palavra nos salva porque nos permite o mergulho nos nossos mares interiores, onde está a Ilha.
Escrevendo, as ideias ganham corpo e as palavras desenham os contornos dos espaços resconsos onde habita, no meu coração, o divino. Deus está perto de mim e na sua grandeza - minha mãe o compara ao mar, amo essa imagem metafórica - ele me acolhe. Como o mar acolhe meus pensamentos e como o mar preciso ir ao seu encontro. Porque, como o mar, Deus permite que eu ame a minha liberdade. E é no mar que fica a Ilha que não conheço mas sei que existe...