terça-feira, 6 de dezembro de 2011

APRENDIZAGENS... (2): Sobre perdão e outros demônios

Pode o perdão demonizar? Tenho pensado muito nisso. Perdoar os outros é algo difícil. A luta entre o que esquecer e o quanto esquecer e o como esquecer o que foi feito. Perdoar é doar. Não quero, até porque não o saberia fazer, alongar-me sobre o sentido do termo. Sei que perdoar é bom, mas isso é difícil. Para mim, particularmente. Entre o ato racional do perdão e os mares e tempestades interiores há céus de distância. E o ato racional do perdão já é uma conquista. O maior problema do perdão é o momento seguinte, em que ele se prova como realidade ou se manifesta como apenas uma pequena intenção, um quase-fracasso em acontecer-se.
De todos os perdões, aquele que me parece mais difícil é o que se faz de modo reflexivo: o perdoar-se. Perdoar-me é talvez o meu maior desafio. Mesmo que racionalmente já o tenha feito milhares de vezes, como convencer o meu coração, meu lado mais irracional, menos ponderado, que isso, de fato, ocorreu? E, de repente, embarga-me a ideia de que tudo poderia ser de outro modo se eu, se tão somente eu, apenas se eu... e mil malabarismos mentais se desenham, mil possibilidades que permitiriam que hoje tudo estivesse bem. Então sei que não consegui um perdão, sequer pequeno, para mim.
Minha relação com meu pai nunca foi das mais fáceis. Meu pai era homem de muitos silêncios e por vários motivos: o sétimo filho entre oito, de um casal da zona rural da Galícia, de uma Espanha que saia de uma guerra cívil, vitimada por um franquismo que perduraria por longos anos. Com uma educação formal que parou em algum momento, ao que parece, no terceiro ano do fundamental. Alguma fome na infância, alguma desatenção... as histórias do passado nunca foram completamente claras. De minha avó guardo algumas imagens e o mérito de que nenhum de seus oito filhos se perdeu. Meu pai, um filho que, com apenas dezoito anos, deixa a casa paterna e vem para o Brasil, viver em outra língua tão parecida à sua e, ao mesmo tempo, tão outra. Experiências de vida que vão calando a voz, deixando-a espessa e quase desnecessária. Silêncio que era um tormento, porém, para uma criança, um adolescente, eu.
Por vezes penso se o silêncio do meu pai teria ajudado a que eu me aproximasse de Deus. Aproximar-me de outro Pai, que me ouvisse melhor, que pudesse me entender melhor, a quem fosse mais fácil me aproximar. Lembro que em alguns momentos havia uma quase disputa entre pais dentro de mim, como o difícil aprendizado de ter que escolher a um deles para ser meu Pai. Hoje tudo parece tão enevoado que falar dessas imagens é quase falar em algo sem contorno.
Claro que houve muitos momentos felizes e, nos últimos tempos, meu pai e eu disfrutávamos de uma tranquila paz.
Lembro-me da minha infância na Espanha, nos domingos de sol que saíamos pela manhã para passear no Centro d'A Corunha, onde vivíamos, e eu tomava sorvete de chocolate e nata. Era uma felicidade tão grande e sutil que até hoje me sinto alegre só de pensar. Já pouco mais tenho do que flashes desses instantes em mim, apenas ainda guardo forte a sensação boa que eram aqueles momentos. Depois íamos almoçar fora, em um pequeno restaurante e eu pedia merluza com fritas. E tudo parecie tão perfeito como uma ou outra papoula que a primaveira permitia ver nos lugares mais inusitados. Era domingo e o tempo parecia infinito.
Se, agora, fechar os olhos, ainda me comovo com papoulas vermelhas e frágeis como os sentimentos mais profundos.
Mas tanto do que meu pai falava tinha razão de ser: tantas de nossas discussões não teriam, hoje, qualquer sentido. Tantas palavras foram ditas inutilmente que tornam o silêncio uma lição de sabedoria. E, ainda assim, não sei, não saberia, retrocedendo no fio do tempo, como fazer de outro modo ou o que fazer. Não sei. Não sei.
Também por isso escrevo, para plantar frágeis papoulas nos espaços resconsos de quem sou e para conseguir perdoar-me. O perdão seria como o sol que mergulha fundo em mim e desperta as papoulas e as faz germinar, frágeis e serenas, repletas de beleza em sua simplicidade. Não quero esquecer o passado, não gostaria de esquecer nada de meu passado. O meu passado é a parte essencial para compreender quem eu sou no meu presente. Quem sou hoje. E eu gosto de quem sou hoje.
Neste momento em que desejo cultivar perdão, consigo relembrar do céu azul e de frágeis papoulas vermelhas dançando a qualquer brisa.
Não é o perdão, mas é um começo. E isso peço a Deus: que me ensine a plantar as papoulas nos lugares resconsos de mim mesmo. E o que o sol possa chegar até elas e elas possam germinar...

Um comentário:

  1. É fascinante como as histórias das pessoas são ao mesmo tempo tão iguais e tão diferentes. Anseios, memórias, confissões, tão únicas e tão parecidas. Cada ser é um mundo em si.
    Do tanto em comum que vi aqui, lembrei-me do quanto me custa perdoar e ter fé, e da inveja que tenho daqueles que fazem de ambos prática tão fácil quanto o respirar.
    Belíssimas ambas, a recordação e a reflexão.
    Algumas coisas tem que ser divididas, para que não nos sufoquem.
    Um abraço.

    Alberto Nannini

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