quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

APRENDIZAGENS... (4): O medo

Após a morte do meu pai experimentei ou reexperimentei um medo mórbido que embora não constante, me assaltava, sim, como um ladrão, nos momentos menos pensados.
Não falo daquele medo razoável que todos temos, mais em certas ocasiões do que em outras e que, de algum modo, regula os comportamentos, impedindo-nos de cometer algumas 'maluquices' que, mais tarde, descobrimos infundadas. Por tal medo, nunca pulei de paraquedas ou fiz algumas outras coisas que, depois, revendo, percebi que apoiava-me no medo para ser eu mesmo. Eu sou eu e meu medo.
Tampouco falo do medo que temos de enfrentar em algum momento para sermos nós mesmos. O medo de sair da casa dos pais, o medo de escolher uma profissão, o medo de mudar de cidade. Medo que enfrentamos para descobrir ser que somos melhores sem ele. Eu sou eu menos o meu medo.
Em um fado, pelo qual nunca nutri grande simpatia, Amália Rodrigues canta: "O medo mora comigo,/ Mas só o medo, mas só o medo.// E cedo porque me embala / Num vai-vem de solidão, / É com silêncio que fala, / Com voz de móvel que estala / E nos perturba a razão". Eu não queria o medo morando comigo. De fato, onde está o medo, tal medo, está só o medo.Um medo que silencia, que nos esfria o corpo, que nos perturba a razão e, conscientemente, sentimo-nos outros, sem o desejar.
Tinha medo de morrer de repente, como ele havia falecido. Tinha medo de vir a descobrir que tinha alguma doença grave que, de uma hora para outra, transformasse totalmente (de novo?) a minha vida. Tinha medo de não disfarçar devidamente o meu medo. Tinha medo, particularmente, por minha mãe. Pela saúde dela: e se ela, também, assim, tão de repente, de modo tão inesperado, viesse a falecer? Tinha medo pelo meu irmão, de que ele não aguentasse tamanho tranco. Medo. Será?
Descobri, quando nada queria saber, que o medo é uma pergunta para a qual sabemos não encontrar - nem desejar - uma resposta. O medo engessa, deixando-nos imóveis. Não tão imóveis que, contudo, não nos possamos mover: mas o movimento é um caminhar para trás, para o contra, para o outro lado. Um movimento que me fazia desejar a imobilidade.
"Enfrentar o medo" é uma expressão tão vazia. O que eu queria era respostas, não há o que enfrentar no silêncio a que a pergunta nos arremete. O olhar se volta para todos os lados e de todos os lados nada é suficiente para acalmar. Lembro que tinha vontade de sair caminhando, caminhando muito, andando sem rumo até a exaustão. O cansaço haveria de acalmar as perguntas: ele, de algum modo, forneceria as respostas. Mas o medo suga as energias. As pernas enfraquecem, a mente fica confusa e não sabe aonde ir. O olhar se turva e pouco enxerga.
A fragilidade de sentir medo é também a consciência de nossa fragilidade. Ser frágil não me assustava antes. Agora me assusta. Descobri-me frágil como nunca antes o havia percebido. Uma fragilidade que não depende de nada que eu possa fazer: eu ou os outros.
Em algum momento ouvi a 'oração da serenidade'. Acho que foi em algum programa de televisão ou algo assim. Nada muito espirtuoso ou espiritual, mas, apesar de, o cansaço acordou com a força das palavras:
"Concede-me, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não posso modificar, coragem para modificar as que eu posso e sabedoria para distinguir uma das outras".
Passei a (tentar) cultivar essa atitude.
Uma querida amiga comentou sobre a importância de manter a mente ocupada. Falou de uma senhora a quem ela apoiara numa situação de luto e que ocupara a mente começando um intrincado ponto de tricô. Pronto descobri a veracidade desse conselho: não deixar a mente entregue ao medo. Era um esforço tal movimento, mas era um esforço válido, por mais gigantesco que parecesse ser. Claro, o tempo... um dia após outro. E o apoio de amigos. E o sol brilhando ocasionalmente no céu. E a redescoberta de alguns prazeres, como um doce com um café com leite no fim da tarde. E o tempo. E a atitude de não desistir. Mais que isso, a atitude de entrega. Entregar-me para um Deus que é capaz de dar-me 'serenidade'. E, nesse contexto, tomo serenidade por paz. Paz.
Há muito tempo li uma frase atribuída ao educador Freinet: "São válidos todos os caminhos que levam para o alto". A frase surgiu de passagem e caiu tão fundo em mim que criou raízes e de vez em quando surge, como um pequeno mantra, ao qual me agarro. Pedir serenidade a Deus era um caminho para o alto. Era válido.
Não sei o quanto avancei em meus medos, mas sei que avancei. Não tenho resposta para as perguntas que me engessavam, mas tenho esperanças. Tenho desejos. Tenho alguma dose de serenidade, suficiente para esperar vencer o medo. Já não me permito - e gosto de pensar que já não o permite Deus - que o medo me engesse, imobilize... Alimento-me dessa esperança e permito-me sorrir. Sim, o medo ainda mora comigo, mas já não é só o medo, já não há essa desolação: mais um avanço, mais um motivo para sorrir, para agradecer a Deus.

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