A memória é o presente do passado. Não apenas a lembrança de um acontecimento, mas a lembrança selecionada desse acontecimento. Mas ainda, a lembrança de pequenos acontecimentos desse acontecimento. E não de todos. A memória se constitui de pedaços de um fato passado que se unem entre si plantando mais uma sensação que um quadro mental. Esses pedaços nem sequer são sempre coerentes entre si: misturam aromas, sentimentos, quadros mentais, informações que surgiram de outros momentos diferentes daquele que se está recordando. A memória é uma armadilha. A memória nos salva.
A memória faz que eu seja que eu sou hoje e e permite que eu me projete para o futuro. Ela me diz que como eu fui capaz de construir memórias felizes no passado, outras memórias felizes virão. A memória me lembra que eu fui feliz e que eu poderei ser feliz outras vezes e dos modos mais inusitados. A felicidade é uma dádiva de Deus. A memória também me traz pessoas e lugares distantes e me ensina que até a dor, por mais profunda, passa.
Hoje guardo de minha infância mais nítidos os dias de sol. O sol brilha de modo muito especial na Galicia, onde chove tanto. Aqui no Brasil o sol é quase algo corriqueiro. O céu azul parece algo comum, perdemos a sensação de dádiva. Mas havia domingos inundados de sol na casa de meus avós, na então pequena aldeia do Milladoiro, perto de Santiago de Compostela, na Galicia. Esta lembrança vem acompanhada de rosca de reis e então eu sei que não é verão. Rosca de reis era algo que apenas se comia nesta época do ano: a época do Natal, particularmente, no dia dos Reis Magos, 06 de janeiro. Nesse dia, em que se celebra a visita dos reis magos ao Menino Jesus, tradicionalmente, as crianças espanholas recebem seus presentes de Natal. Os meus, contudo, eu costumava a recebê-los antes, evocando a ideia de que no Brasil, a data 'certa' é o dia 25 de dezembro.
Diante da casa de meus avós havia um grande patio, onde ficava o galinheiro e um horreo, uma espécie de depósito da colheita do ano. Naquele espaço mágico e amplo eu me sentia no ponto zero: como se todas as direções do mundo partissem dali, como se dali se medisse todo o longe e todo o perto.
Meu pai nos levava para a casa dos meus avós no domingo pela manhã. Íamos em um carro azul. Minha mãe queixando-se das curvas da estrada. Parávamos (ou paramos nesta lembrança específica) em algum lugar para comprar uma rosca de reis e seguimos viagem. Queria lembrar mais do que meu pai poderia ter dito, mas lembro de meu pai agindo mais do que dele falando. Esse homem tão amado de silêncios tantas vezes intransponíveis. Talvez para ele mesmo. Sei, contudo, que ele era feliz. Sei? Assim o tenho em minhas memórias. Espero estar certo.
A maior dificuldade dos silêncios é a necessidade das pontes. A dificuldade maior é, portanto, o muro branco e contínuo que o silêncio forma. Mas, havendo sol sempre poderemos procurar uma porta. Os dias de chuva, que também têm graça especial, dificultam, contudo, as caminhadas. Deixar as portas abertas facilita dar sentido ao muro. A porta aberta é também uma ponte para o outro lado e sempre precisamos do outro lado para continuarmos nossas muitas caminhadas.
Éramos, usualmente, muitos netos reunidos nessas festividades. Eu era um dos netos do meio e sendo filho mais velho resultava-me incômodo partilhar uma posição diferente daquela com a qual convivia na maior parte do tempo. De um modo geral, contudo, a memória que trago comigo é de alegria. Era festivo estar com os primos, particularmente, os mais velhos. Era um aprendizado deixar de ser o menino da cidade, filho mais velho e passar a ser mais um no campo. Um aprendizado que, hoje, me traz uma saudade fina como uma brisa. Lembro de ir perto do monte, aonde havia um tanque para lavar roupas, algo meio comunitário e que parecia uma grande piscina. Lembro-me de uma fonte que havia perto da casa dos meus avós.
Queria lembrar-me de estar de mãos dadas com meu pai, mas não consigo. Forço a mente e tenho uma série de lembranças solitárias. Mais tarde notei que, de algum modo, a solidão é também constitutiva de quem eu sou. Notei que preciso constantemente aprender a dar as mãos a Deus e que esse aprendizado é, em si mesmo, uma caminhada.
Particularmente especial era o momento em que íamos, os homens da casa, à taverna, antes do almoço. Tomava uma coca-cola. Meu pai por perto ensinando-me a ser adulto. Uma bênção, com regrigerante e amendoins ou batatas fritas.
Lembro de uma surpresa que meus primos me armaram uma das vezes que chegamos à casa dos meus avós. O sobrado tinha uma espécie de pátio superior que, hoje, parece-me que servia unicamente para que debaixo dele se pudesse guardar o carro. Chegamos nós e pusemos o carro por ali e ao sair todos os meus primos me olham lá de cima e acenam e eu me senti feliz por ter primos e fazer parte.
Fazer parte é uma porta que abre muros, constrói pontes, rompe silêncios.
Mas nessa época da infância pai e mãe parecem lugares eternos e imovíveis que nunca vão nos deixar. E, muitas vezes, o simples fato de que estejam ali perto já comunica tudo o que precisamos.
Hoje lembro desses fatos enquanto me obrigam a pensar na documentação da casa que ficou para mim de herança. Sei bem que até nisso sou agraciado, pois há tantos pais que, ao falecer, deixam uma situação financeira instável para os outros. Não foi o caso do meu pai.
Mas, o que são as memórias dos dias de sol com primos e rosca de reis nos domingos na casa dos meus avós perto de uma casa de herança? Mas, ainda há o sol brilhando lá fora me lembrando desse passado bom, ou pelo menos, bom hoje, nas memórias que dele trago. E ainda há o sol lá fora pronto para construir outras memórias boas e felizes para o futuro mais além.
Peço a Deus que me ensine a guardar as memórias construídas e a caminhar na construção de novas lembranças.

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