Hoje descobri, de repente, agraciado, como se fosse uma bênção ou um pingo de chuva, o motivo maior que me levou a começar este blog. Eu preciso aprender a viver. O aprendizado que mais desejo é o do perdão. Eu preciso aprender a perdoar. Eu preciso aprender a me perdoar.
No dia 10 de julho de 2011 meu pai faleceu. A dor traduzida por um momento que começou estava eu começando a digitar no computador, tal como o estou agora, é difícil de traduzir. É única. A dor que toda morte causa nos que estão vivos é única. Isso é algo insólito e inesperado: que você sinta uma dor única sobre um acontecimento que parece tão banal. A banalidade é que causa a surpresa?
A dor parece que nos engole e tritura, de modo antitético: ao mesmo tempo algo tão veloz e forte que tira o chão e o ar e, contudo, de forma tão fina e persistente que até parece doce e agradável. Ainda há pouco sentia falta de ar antes de dormir e a sensação de que talvez, também eu, morreria de ataque cardíaco logo logo. Ir deitar-se e sentir o corpo estranho, com a mente pensando em que talvez também eu morra de repente, esta noite mesmo, é triste, mas de algum modo traz a alegria, no dia seguinte, ao se constatar que estamos vivos.
Ainda me sinto culpado. Não sei do quê, mas sinto-me culpado. Carrego a culpa constantemente como quem carrega uma verruga: com o desejo de livrar-se dela e com o receio de que ela faça definitivamente parte de quem sou. Sou culpado. Mas, não sei bem como faria de outro modo. Fico, por vezes, pensando nisso, muito e muito, pensando em como seria o outro modo que me faria ser feliz e ter meu pai (ainda) vivo. Ter é uma estranha e triste forma de amar, diz Saramago, n'O conto da Ilha Desconhecida. Precisaria reler esse livro e talvez pedir ao nome que conseguiu um barco um lugar para, junto a ele e à mulher da limpeza, também eu lançar-me ao mar. Em busca da Ilha Desconhecida que espero que exista porque ninguém provou a sua inexistência.
Queria ter forças para, como essa personagem, prostrar-me à porta do rei e insistir 'Dá-me um barco', mas basta-me para já que eu tivesse um lugar nessa barco alheio. Talvez tudo o que eu tenha de mais meu seja o alheio. Talvez então nunca devesse usar o verbo ter com pessoas. Jamais tive meu pai ao meu lado, apenas disfrutei a sua companhia. O que hoje tenho é a memória, boa e gentil, de sua companhia.
Moro em São Paulo e meus pais moravam em Joinville. Nesta época do ano, vir a Joinville visitá-los era uma festa. Eu viajava no fim do mês sempre buscando passar a virada do ano em algum outro lugar. Mas até o fim do mês esperava-me o Natal e a companhia dos meus pais.
Somente hoje, ao chegar ao aeroporto de Joinville e não ver ali meu pai é que me dei completamente conta de como eu gostava de chegar a Joinville. Dai compreendi melhor porque tenho relutado em voltar para aqui, aonde agora me encontro. Sair da sala de chegadas e não encontrar ninguém provocou-me uma sensação de vazio que me fez desejar chorar. Sentei-me num banco e esperei. A lágrima ensaiava brotar. Diante de mim a porta que dava para a rua, que eu atravessaria em breve, para pegar um táxi para vir a casa. Minha mãe esperava-me em casa, minha mãe a quem eu pedia que não me fosse buscar. A força para levantar-me e atravessar a porta que se abria à minha frente, diante de mim, é que me faltou. Eu queria chorar, mas, de algum modo tão meu, apenas umedeci os olhos: faltavam-me lágrimas. Meu coração, no entanto, chorava.
Mudei o roteiro este ano. Apenas passo uma semana aqui, em dezembro. As festividades de final de ano minha mãe as passará com meus tios que virão visitá-la. Eu estarei viajando: Portugal, onde um dia já me plantei e a Itália, onde gosto de plantar-me, ocasionalmente. Depois retorno no começo de janeiro para o Brasil. Devo voltar a ver minha mãe. Viajei muito este ano: estive duas vezes em Paris, uma em Roma e uma em Buenos Aires. Viajei para fugir de mim e para aprender a mudar.
Mudar parece ter-se tornado palavra de ordem nos últimos tempos: mudei muito. Deixei de ver programas de televisão em que aparece a morte como tema. Deixei de ver até programas que falem de problemas de saúde. Nesse interim, morreu um amigo meu e eu não consegui ir ao velório. Mudei para continuar vivendo. Para superar o medo de cair na vontade de não viver.
Tudo isso passou por mim enquanto o táxi me trazia para a casa de minha mãe. A casa dos meus pais. A língua portuguesa, com seu machismo escondido, parece-me, até ela, querer pregar-me uma peça. Olhava o céu cinzendo e passeava por esses pensamentos em ensaio de oração. Estou lendo O ano da leitura mágica de Nina Sankovitch. O céu cinzento, minha dor, minha oração, os pensamentos dançantes, todos se fundiram em uma pequena, insignificante e límpida epifania que me deu (a) luz.
Em O ano da leitura mágica, Nina nos conta como procurou superar a dor da morte de sua irmã, vitimada por um câncer. Mesmo depois de três anos, a dor era um constante incômodo. Ela, então, resolve ler um livro por dia e, ainda, publicar uma resenha em seu site (ou seria blog?) sobre o livro lido.
Eu não vou ler um livro por dia. Não tenho a velocidade de leitura necessária. Não tenho essa disposição. Mas, o caminho para superar este incômodo e aprender a conviver com ele será a escrita. Desde que comecei este blog este era o seu objetivo escondido.
Apenas não me havia dado conta. Talvez achasse que conseguiria falar de mim e da dor e da minha relação com Deus em disfarçada abstração. Já não consigo, preciso assumir-me em palavras. Tenho notado que preciso parar de querer mudar, de querer fugir. Preciso assumir o eu no discurso. No eu o leitor me encontrará indefeso, mas talvez também possa se ver. Se, de algum modo, o leitor se vir nestas palavras, elas terão ganho um motivo maior ainda de existirem.
Ontem me apanhei dizendo a um amigo que as principais mudanças acontecem sem que desejemos que ocorram. De repente, nos damos conta, quase que por acaso, que mudamos. Que hoje já não faríamos daquele jeito ou que já não pensamos daquela maneira. Essas mudanças ocorrerão sempre. A morte de meu pai apenas dão lhe novos matizes. Mas tento mudar apenas por mudar, mudar para fugir. Não me agrido, ainda há programas da televisão a que não consigo assistir: Dexter, CSI... Ainda há conversas que me causam incômodo. Talvez isso faça definitiva forma de quem agora sou. Mas me dei conta de que, sem querer, assisti estes dias a um série policial, com assinato e resolução. Se tivesse parado para pensar não a teria assistido, mas sem me dar conta, me diverti com ela.
É a Ilha Desconhecida que desejo, essa ilha dentro de mim que me faz ser eu mesmo. Nessa Ilha habita o Sagrado e nela comungo com Deus. Ela se mancha pela dor quando, na verdade, deveria ficar mais em evidência. Sou tão frágil. E no táxi eu percebi que a palavra nos salva porque nos permite o mergulho nos nossos mares interiores, onde está a Ilha.
Escrevendo, as ideias ganham corpo e as palavras desenham os contornos dos espaços resconsos onde habita, no meu coração, o divino. Deus está perto de mim e na sua grandeza - minha mãe o compara ao mar, amo essa imagem metafórica - ele me acolhe. Como o mar acolhe meus pensamentos e como o mar preciso ir ao seu encontro. Porque, como o mar, Deus permite que eu ame a minha liberdade. E é no mar que fica a Ilha que não conheço mas sei que existe...


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