Escrevo de Lisboa. Viajei ontem. O tempo do voo pode ser também um tempo para pensar. Além disso, terminei O ano da leitura mágica. Mesmo uma biografia, pode ser mais fácil que a realidade. Depois de superada a montanha ela parecerá menor? Talvez... De qualquer maneira, não há como discordar: a generosidade nos salva. Pela generosidade, pela ternura, pela bondade resgatamos o que há de mais autêntico em nós. Esse caminho nos liberta. Ele liberta o meu caminhar.
Não superei a minha dor. Claro, viajar a atenua. Preencher o tempo de um modo diferente pode ser fugir do futuro. Pode ser. Mas também pode ser um momento de pausa, de repensar e repensar-se. O mesmo para passar um ano lendo um livro por dia ou passar vinte dias na Europa. São ambas duas maneiras de sair de si mesmo. Seja para fugir de si mesmo, seja para olhar melhor. Não deixa de ser interessante que o mesmo movimento possa nos levar a direções tão opostas.
A generosidade, a bondade e a ternura me salvam. Acredito nisso. São chão que alicerçam meu caminhar. Dão sentido da vida. Superar a dor é, de certo modo, apenas isso: dar sentido à vida. Apenas isso? Sim, a fórmula simples esconde uma montanha em si mesma. Isso é o que a autora de O ano da leitura mágica descobriu. Isso é que, eu, dia a dia, procuro descobrir. Redescobrir. Pratico então a generosidade não tanto pela reação do outro, mas por conta de que eu desejo ser. Ser generoso dá-me uma identidade, faz-me ser um "eu".
É um desafio enorme em si mesmo, eu sei. Ainda mais: eu vivo. Por isso, a distância espacial, como um sair de mim mesmo para olhar-me melhor ajuda.
Eu não precisava ter vindo a Lisboa para isso. Poderia ter lido um livro por dia, durante um ano, ou começado a caminhar ou refugiado-me na pintura ou... Mas preciso criar, constantemente, rupturas para que esse movimento de distanciamento seja constante. Desse modo posso ver-me melhor e posso observar o meu progresso caminhando. Não poderei vir a Lisboa todos os meses (embora não falte a vontade), mas posso caminhar quase todos os dias, posso retomar a academia (malhar também permite-me esse tempo em que estou só não o estando). E, principalamente, posso valorizar a bondade, a ternura e a generosidade diante do outro. Com o outro.
Praticar a bondade, a generosidade e a ternura com meus amigos. Queridos amigos que têm sido generosos, bondosos e ternos comigo. Queni, João, Teresa, Priscilla, Eduardo, Vanise... Deixo mais alguns nomes por citar. Meu Deus, eu tenho tantos amigos!
Com minha mãe. Com meu irmão. Com meus tios, minha sobrinha, minha cunhada...
E, desafio maior, com o desconhecido ou, desafio maior ainda, com aquele com que, de antemão, já sei que não irá valorizar meu gesto generoso.
Desafio que exigirá constância e que me significará voltar a ser eu mesmo sendo um outro. Sim, ninguém passa por tais experiências para voltar a ser o mesmo. Isso eu já veriifico. Mas quem eu sou, ou melhor, quem eu vier a ser, isso dependerá, em grande parte, de mim. Nisso investirei: em semear esperanças.
Praticar isso me resgatará. Lentamente.

Nenhum comentário:
Postar um comentário